Vai ter Shopping Metropolitano e Ecocity?

Acerca de 25 edições,  este editorial  segue com a proposta de incentivar o debate sobre os eventos que envolvem a construção do Ecocity Jiquiá e o Shopping Metropolitano na região oeste do Recife. Para tal, os editores do Jornal Infornativo, colhem mensalmente, informações a respeito dos trâmites e acordos que envolve: o representante do poder público – A Prefeitura da Cidade do Recife e os atuais moradores do entorno do terreno (as comunidades do Caxito e da Cabeça da Vaca), onde incorporadoras da construção civil, projetam e especulam no desejo de construir  um grande complexo, baseado no conceito de cidade planejada.

Para entender tal fenômeno urbano, procuramos visitar outros empreendimentos com equivalência nas proporções físicas e mercadológicas. Estas visitas serviram para entender o que aconteceu com as comunidades de áreas que sofreram e sofrem os impactos socioeconômicos, desde o período da construção até a consolidação do empreendimento. No levantamento dos pontos positivos e negativos, os entrevistados contaram suas vivências, durante a evolução da comunidade do entorno do Shopping Guararapes e do Shopping Tacaruna e as transformações dos cenários.

O MURO:

Ao redor do Shopping Tacaruna, intitulado pelos próprios moradores como o Muro da Vergonha, desde que foi construído com a justificativa de prevenir os transeuntes do bairro de Santo Amaro de possíveis acidentes no canteiro de obras, onde o shopping viria a erguer sua estrutura.  Desde então, a comunidade da Vila dos Casados e de Santa Terezinha, convive com o símbolo da exclusão social, que hoje, serve para esconder o contraste urbano entre as casas e os estabelecimentos comerciais simples do entorno e o prédio do Shopping.

E o contraste aumenta a cada dia que passa. Os gestores do shopping por sua vez, para acompanhar as tendências, transformam o lugar com a justificativa de atender melhor os usuários dos serviços e, para isto, investem em mega reformas estruturais.

“A expansão e luxo que assistimos nas campanhas anunciadas nos comerciais de TV, sobre a inauguração dos novos pavimentos, faz a gente pensar em como a desigualdade mora lado a lado”, disse Vilma Gomes, que mora a 52 anos na comunidade, em entrevista ao Infornativo. Segundo ela, o muro tem uma função clara: “Separar e esconder a parte pobre que mora do lado de fora do shopping. Quem vai ao shopping, passa por aqui, sem saber da pobreza que existe do outro lado do muro e é isso que os donos do shopping querem: sair bonitos na foto. Existe um projeto cultural para fazer os grafiteiros pintarem o muro e isto é bom porque incentiva o trabalho, mas entendo que isso é financiado pelos gestores do shopping apenas pra maquiar a verdade. É triste conviver com isto. São poucas pessoas que pensam assim, e é isto que acontece, infelizmente”.

No Jiquiá a construção do muro justifica-se de uma forma diferente, mas consequentemente repercute da mesma maneira. Para tentar conter novas invasões, os proprietários cercaram o local o muro no intuito de dificultar o acesso e inibir ocupações, como as que foram realizadas entre os dias 04 e 21 de maio. Inicialmente impulsionada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST – organização social que luta pelo direito fundamental da moradia), a Ocupação Olga Benário se instalou em parte do terreno nas proximidades da Avenida Recife.Mas eles não ficaram sozinhos. Com o passar dos dias, a repercussão da ocupação nas ruas (o chamada boca a boca) fez com que pessoas de comunidades vizinhas, muitas vezes com a ambição de obter uma segunda moradia, viessem, de forma desorientada,  também a fazer parte do movimento, se espalhando por todo terreno. Cerca de 75 pessoas passavem o dia guardando os barracos, e 30 dormiam no local. Estima-se que,na data da reintegração de posse, 50 pessoas participavam da ocupação. Mesmo com a reintegração, a Ocupação Olga Benário obteve conquistas, acelerando o processo de cadastramento de algumas famílias nos programas de habitação do governo federal.

No dia da reintegração, flagramos trabalhadores reconstruindo a parte do muro demolida pelos integrantes do MTST. O muro foi requalificado e estendido por todas as partes do terreno, que antes eram cercadas apenas por vigas e arames. Agora, o muro formado por vigas, tijolos e cimento, é o novo elemento que realça as paisagens da Avenida Recife e da Cabral de Melo Neto.

Os moradores reclamam que, no início, eram impedidos de passar nos portões de acesso ao terreno que ficam no caminho para chegar em suas casas. Cristina esclarece sobre como chegaram em uma solução: “Muitos contratempos aconteceram em relação ao acesso, as pessoas responsáveis pela segurança do terreno não estavam bem instruídas, e fui com a comissão dos moradores do Caxito e Cabeça de Vaca, à prefeitura falar com Secretário João Braga, que ligou para os proprietários, pedindo que flexibilizassem o acesso das pessoas que precisassem passar por ali”.

Cristina completa: “Os moradores já sentem os impactos desta vigilância. É preciso pedir licença para entrar em casa. Quando se trata de uma emergência nem sempre se consegue entrar rápido de carro. Apesar de tudo, em dias de partidas ou treinos, os campos de futebol estão liberados. As pessoas estacionam os carros nas avenidas do lado de fora do terreno e assim vamos convivendo”.

OS EMPREGOS E O ENFRENTAMENTO À CRISE ECONÔMICA:

É unânime a opinião dos moradores residentes no entorno de empreendimentos semelhantes (Shopping Tacaruna e Guararapes), quando falam sobre os empregos que serão gerados para as pessoas das comunidades vizinhas. Durante e depois da consolidação, os empregos são ofertados principalmente para a parcela da população que mora nos bairros vizinhos. Os relatos de quem trabalhou ou de quem tem algum familiar trabalhando diretamente ou indiretamente por conta da mudanças do cenário econômico daquela região são todos de gratidão.

Cristina reflete sobre como o poder público pode reagir contra o aumento do desemprego, consequência da atual crise econômica que enfrentamos no âmbito nacional: “Eu acho que o prefeito e suas secretarias deviam se sensibilizar com as questões do Jiquiá, pois já participamos de todos os acordos que nos foram solicitados. Fazem mais de 5 meses que esperamos a definição da PCR sobre o termo de compromisso que geramos em acordo com os donos do terreno. Precisamos que o prefeito seja firme e não deixe para resolver nosso caso no período eleitoral. Precisamos de segurança sobre o processo em que um dos itens fundamentais é a garantia do auxilio moradia de R$ 408,00 (o chamado aluguel social) no período das primeiras desocupações de famílias que moram nas margens do terreno, para que elas possam encontrar um lugar digno enquanto esperam a construção das moradias sociais, em um período mínimo de um ano e meio. Já encontramos um terreno no bairro de Jardim São Paulo e apresentamos à prefeitura. Prometeram fazer vistorias para saber se o terreno está apto para receber a fundação de conjuntos residências com recurso federal – MCMV (Minha Casa, Minha Vida)”.

Ela conclui: “Mas nos parece que não existe o mínimo de boa vontade por parte do prefeito em acelerar este processo que atende aos anseios das comunidades onde vai se estabelecer o projeto. Dentre tantos benefícios que a gente pode colher, um deles são os empregos… quem sabe podiam também influenciar na redução da criminalidade que vivenciamos nas ruas. As promessas são lançadas a passos lentos e fica difícil de acreditar. Precisamos ver acontecer,  porque sabemos o quanto o empreendimento pode nos ofertar caso saia do papel”.

Em contrapartida, a assessoria dos donos do terreno responderam ao Jornal Infornativo por e-mail, sobre a perspectiva atual: “A atual crise e seus impactos no setor imobiliário e, principalmente, a falta de recursos para o MCMV e o Auxilio Moradia  está a inviabilizar  o início dos projetos que dependem do remanejamento de famílias das margens do rio Jiquiá e Canais de Drenagem da Cidade.

A PCR está sem dinheiro para o auxilio moradia dessas populações e a Caixa sem dinheiro para o MCMV – Faixa 1.

Além disso, o preço que vinha sendo pago às empresas construtoras para essa faixa do MCMV está defasado há mais de 24 meses, e o governo também não tem recursos para atualizá-lo, inviabilizando o programa”.

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