Tem sempre alguém fazendo a diferença

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por: Marly Morais| Divulgação: Forte Gás e Biblioteca Comunitária Caranguejo Tabaiares

Há cidadãos que por razões particulares decidem melhorar a vida de outras pessoas de maneira desinteressada e altruísta, quer seja em trabalhos voluntários ou de caridade em instituições já estabelecidas, quer seja distribuindo alimentos e vestimentas a moradores de rua.

Entretanto, há aqueles que dedicam seus dias a encantar crianças, adolescentes e adultos a ver o mundo através da leitura. São estas pessoas que organizam pontos de leitura ou bibliotecas comunitárias que contribuem de maneira efetiva para a democratização do acesso à leitura no país. Vamos conhecer um pouco dessas iniciativas desenvolvidas pela sociedade civil na zona oeste de Recife, infelizmente desconhecidas da maioria da população.

O tema aqui abordado não será relacionado a programas governamentais de iniciativa a leitura que ao longo dos anos vem sendo implantados nas escolas públicas através de ações do Ministério da Cultura, do PNLL- Programa Nacional do Livro e Leitura ou do SNBP- Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas. Tratar-se-á da Leitura como um direito humano, proporcionado voluntariamente por seres gentis e comuns, que acreditam no desenvolvimento de seus semelhantes através da educação e tomam para si essa missão.

WhatsApp-Image-2017-11-16-at-10.26.33Muito gratificante é entrarmos em uma distribuidora de gás na Avenida do Forte Arraial do Bom Jesus, nº 780, no bairro de Torrões e nos surpreendermos com a visão de uma minibiblioteca no seu interior. Além disso, somos recepcionados gentilmente por uma moça chamada Patrícia Bernardo Bezerra, que além de cuidar do seu negócio, disponibiliza livros para seus clientes. Ou seja, todos saem de lá com o gás para cozinhar alimentos para o corpo e com a motivação para alimentar a alma através da leitura. Patrícia nos conta que “não gosta de leitura tanto quanto deveria, mas tem dentro dela a vontade de incentivar.  Conta que gosta muito de leituras do segmento filosófico, que trata das questões da existência.” Ela diz que essa ideia surgiu “na época em que criaram o aplicativo de Pokemons e o estabelecimento era um pit stop para recarga dos Pokemons.” Na área há muitas escolas particulares, estaduais e municipais, muitos estudantes passaram a frequentar habitualmente. Ela lembra que eles ficavam lá sentados e brincando com os Pokemons e ela pensou que eles poderiam passar a buscar livros, em lugar de ficarem somente brincando. Foi recebendo doações de livros, e ela afirma que “muitas amizades boas ocorreram com esse projeto. O Projeto é para contribuir com o gosto pela leitura, não tem nenhuma regra, é uma biblioteca comunitária livre, o acesso é livre e você passa e pega quantos livros quiser. Eu gosto muito de poder contribuir com alguma coisa. Não custa nada”. Vê-se no conjunto da fala de Patrícia a capacidade de transformação do seu espaço de convivência e a generosidade de promover o bem do outro sem nenhum outro interesse. Uma cidadã que faz uma enorme diferença no seu bairro.

Outra história apaixonante foi contada ao Jornal Infornativo por Cleonice da Silva. Esta senhora poderia ter vivido como uma simples trabalhadora e moradora de uma comunidade pobre, e como a maioria, poderia apenas cuidar da sua própria subsistência e de sua família. Mas, não foi o que ocorreu. Sem nenhum vínculo com a área de educação, tornou-se fundadora da Biblioteca Comunitária Caranguejo Tabaiares, situada na Rua Campo Tabaiares, nº92, na Ilha do Retiro. As duas comunidades Caranguejo e Tabaiares são vizinhas e tem em comum a pobreza, mas também tem a força de parcela da sua comunidade que se organiza para dar solução aos problemas de carência e de violência que enfrentam.

Em visita à Biblioteca Comunitária Caranguejo Tabaiares fomos gentilmente recebidos pela fundadora do local, D. Cleonice. Havia também algumas estudantes universitárias que trabalham voluntariamente no espaço e crianças da comunidade no local. Cleonice nos revelou sua história de doação e amor pelo povo de sua comunidade. Moradora a 40 anos em Tabaiares, ela conta que participava de um grupo de adultos e idosos da comunidade liderados por uma líder da comunidade que já faleceu.

Cleonice disse que buscava parcerias com profissionais de hospitais e de faculdades para levar palestrantes até eles. Mas, com os idosos iam os netos e filhos que ficavam sem ocupação. Foi desse fato que ela e uma professora de uma faculdade próxima pensaram na biblioteca como solução para ocupar aquelas crianças. A professora propôs que ela conseguisse um espaço na comunidade de Tabaiares para alugar e ela disse que não sabia nem como começar. Convidou um jovem chamado Reginaldo para ajudá-la.

Com o apoio do grupo de professores, no dia 11 de outubro de 2005 foi inaugurada com apenas 800 livros.  Foi imprescindível o apoio da Faculdade de Ciências da Administração de Pernambuco (FCAP), da Associação Cultura Planeta, além de outras organizações como ETAPAS, Centro Josué de Castro, FASE, Escola Maria Goretti, incluindo moradores da comunidade. Ainda, segundo conta-nos Cleonice: “Receberam doações de mobiliário, de computadores, de forro de gesso, de ventiladores, de cerâmica de um banco e dos comerciantes a quem pediu apoio.” Ela recorda emocionada: “Botava a pasta debaixo do braço e ia atrás com nosso projeto. Pedi ajuda a Reginaldo que era um jovem que já nos ajudava e disse a ele: – A gente não sabe de nada, mas a gente vai aprender. Reginaldo fez formação com uma professora chamada Vilma para organizar a Biblioteca.”

Ficaram 11 anos e 7 meses num espaço alugado, mudaram para a casa atual também alugada e esta última casa foi colocada à venda. Ela não tinha o dinheiro, mas conseguiu adquiri-la com ajuda de pessoas que cuidavam de outros projetos na comunidade. Sua luta não foi vã, comprou o espaço que foi reformado com doações. Estão a pouco mais de um ano na nova sede. Ela diz: “A gente só não tem dinheiro,  mas tem amor e vontade de fazer um trabalho com crianças, adolescentes e idosos.”

Reportando-se ao que significa o projeto da biblioteca, D. Cleonice fala  emocionada: “O meu sentimento… minha preocupação com a comunidade é ocupar essa geração… essa comunidade já foi muito violenta… a Folha (referindo-se ao jornal local) só entrava aqui para fazer reportagem de morto, agora não, a Folha só entra aqui para fazer entrevista conosco sobre a biblioteca, sobre o projeto com bicicleta que temos aqui na biblioteca… tiramos da rua adolescente que usava drogas… adolescente que hoje trabalha, casou e tem uma vida tranquila com sua família… E, conseguir isso é muito gratificante. Isso pra mim não tem preço… recuperar um pra mim é uma vitória“.

A Biblioteca Comunitária Caranguejo Tabaiares conseguiu formar uma rede de colaboradores e apoiadores das atividades desenvolvidas. Quem desejar conhecer melhor o projeto pode acessar o seu blog e as páginas e perfis nas redes sociais.

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