Prefeitura não consulta o povo sobre ciclofaixas

por: Marly Morais| Fotos: Osvaldo Morais

A cidade de Recife, assim como muitas outras cidades brasileiras foram crescendo sem nenhum planejamento, prejudicando a mobilidade urbana. O crescimento desordenado dos diversos bairros, com vias estreitas, tem prejudicado o trânsito de todas as modalidades de meios de transportes.

Os últimos governos municipais têm tentado resolver os problemas de mobilidade de diversas maneiras. Inclusive, se percebe um esforço sistemático para incentivar o uso de bicicletas como uma das soluções para resolver os engarrafamentos diários. Porém, não podemos dizer que pernambucano as adotou como meio de transporte preferencial. A falta de segurança para ciclistas que sofriam muitos acidentes, está gradativamente sendo resolvida com a implantação de ciclofaixas. A Prefeitura de Recife incluiu os bairros de San Martin e Jardim São Paulo como rota ampliando a conexão da Rede Cicloviária Metropolitana, que pretende promover a interligação entre as Regiões Norte, Oeste e Sul.

Contudo, a prospecção de  rotas cicláveis não tem ocorrido de forma a agradar a todos igualmente, provocando polêmicas vez por outra. O Jornal Infornativo se disponibilizou a ouvir a população da Região Oeste, a pedido dos mesmos. Assim é que nesta matéria iremos trazer algumas questões a respeito da Ciclofaixa que se estende de San Martin até  Jardim São Paulo, que estão sendo discutidas por moradores e comerciantes dos bairros de San Martin e Jardim São Paulo. Ouvimos usuários das ciclofaixas, moradores e comerciantes locais.

Quem circula regularmente por esta área sabe o quanto as ruas e avenidas são estreitas. Este fator traz dificuldades que precisariam estar sendo discutidas com a população na fase embrionária do planejamento dessas rotas bidirecionais pelos que compõem o Plano Diretor Cicloviário da Região Metropolitana do Recife (PDC/RMR), a fim de que não haja impedimentos posteriores. Escutar a população deveria ser uma das fases do planejamento.

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A moradora de San Martin, Marise, usa diariamente a Ciclofaixa de sua casa até o trabalho em Jardim São Paulo. Diz que melhorou muito para ela se locomover porque é um meio de transporte mais rápido e é bom para a saúde, mas encontra dificuldades porque carros não respeitam ciclistas e ela tem de sair da ciclofaixa em vários locais para contornar carros estacionados e cavaletes colocados por comerciantes nas mesmas. Essa é uma reclamação constante de ciclistas e embora haja multas para tais infrações, o Infornativo pode constatar esta ocorrência em vários lugares.

Outra reclamação inusitada foi feita pelo ciclista, Elizeu Ferreira, denunciando que os pedestres também não respeitam a ciclofaixa tanto quanto alguns motoristas: “Eu vim de Jardim São Paulo pra Mustardinha eu não usei a metade da ciclofaixa, os pedestres não dão a vez para os ciclistas… só quem quer usar a faixa é eles, E ali tem o desenho da bicicleta, de todo jeito fico no meio da rua se arriscando com os carros. Eles não usam a calçada. Aí eu acabo andando na contramão, pra poder ver quando vem os carros.”

Não está em discussão a necessidade e benefícios que uma malha cicloviária traz para a população de uma cidade e para o meio ambiente. É uma tendência mundial a implantação de ciclovias e ciclofaixas na cidades. Diminuindo o trânsito de carros, o deslocamento das pessoas será mais rápido, o gasto de combustível fóssil e a poluição do ar reduzem-se e a saúde de ciclistas e não ciclistas melhora.

Mas, é necessário dar atenção a quem está sendo prejudicado, como é o caso de Márcia Braga, comerciante a 11 anos em Jardim São Paulo, que mesmo sendo favorável à  criação de ciclofaixas, argumenta que a mesma prejudicou em 60% seus lucros, reclamando que as autoridades não tem sensibilidade de conversar com as pessoas que irão ser beneficiadas ou afetadas pelo que eles decidem. Ela diz que “Fiquei angustiada no início porque os impostos são altos e me senti prejudicada, atendendo a clientes correndo por que teve clientes que estacionaram na faixa amarela, colocada nos dois lados da rua, e foram multados. Um transtorno que poderia ter sido evitado. Depois que os comerciantes foram reclamar, conseguiram a liberação do estacionamento do lado oposto ao da ciclofaixa, pintando o meio fio de branco.”

Na Folha 1 do Diário Oficial da Prefeitura de Recife, do dia 16 de Setembro, na publicação “Sinalização em Jardim São Paulo”, dá-se notícia de que a queixa dos moradores e comerciantes sobre a faixa amarela foi levada ao plenário da Câmara dos vereadores por Amaro Maguari e à presidente da CTTU, Tarciana Ferreira, justificando-se a mudança na sinalização das faixas referidas pela comerciante Márcia Braga.

Cícero Nascimento, comerciante na Rua Comendador Franco Ferreira, em San Martin, questiona  “Porque a ciclofaixa não teve continuidade na Avenida General San Martin, pois os meus clientes  tão tendo que parar a duas quadras de distância do meu estabelecimento, porque ele só tem 2 vagas para oferecer.” -  Reclama que “ Não foi feita uma consulta pública, não foi ouvido ninguém, causando prejuízo e perda de receita.”

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Alguns moradores de San Martin, Fernando e Gilvan Tito, queixam-se dos transtornos causados e declaram que fizeram um abaixo-assinado para a Secretaria de Mobilidade Urbana, solicitando que não continuassem com a construção das ciclofaixas na Rua Comendador Franco Ferreira, que já teve os dois lados do meio fio pintados de amarelo, impedindo os moradores e seus familiares de estacionarem seus carros em frente de casa, assim como os clientes do comércio que estão impedidos de estacionar mais próximo dos serviços, além de prejudicar os taxistas e feirantes. Mas ainda não receberam nenhuma resposta oficial.

Os gestores da Mobilidade Cicloviária de Recife, bem como os gestores de outras áreas da cidade, precisam ficar mais atentos ao fato de que a população tem muito a contribuir com boas ideias e sobretudo com opiniões adequadas às suas reais necessidades. Políticas públicas descoladas da participação popular podem incorrer em erros e insatisfações, não raras vezes tendo de ser refeitas, o que demanda novos gastos que devem ser evitados em tempos de crise como a que vivemos.

A Prefeitura do Recife realizou a prospecção de novas rotas cicláveis em consonância com o Plano Diretor Cicloviário da Região Metropolitana do Recife (PDC/RMR). As rotas irão compor a Rede Cicloviária Complementar, que está sendo projetada de forma que as novas rotas cicláveis se conectem com as já existentes e com Rede Cicloviária Metropolitana, que está sendo elaborada pelo Governo do Estado. Os projetos priorizam o atendimento aos bairros que abrigam polos de interesse público, como parques, praças, mercados públicos e terminais de ônibus, criando pontos de conectividade entre esses equipamentos.

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