Os heróis dos campos de varzea

por: Rafael Eduardo | Fotos: Osvaldo Morais e Arquivos do Campeonato das RPA’S

Pelé, Romário, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Neymar. Claro! Quase todo mundo deve conhecer. Esses são ídolos do futebol brasileiro. Mas se engana quem pensa que os jogadores profissionais são os únicos heróis das nossas quatro linhas. Nos campos de terra batida, nas periferias das cidades brasileiras, a bola também corre solta. São os jogos do futebol de várzea. Nesses espaços, os heróis da bola estão bem mais próximos da torcida. Eles geralmente fazem parte da comunidade.

No Recife, campeonatos de futebol de várzea vem sendo promovidos oficialmente há pelo menos 16 anos pela Prefeitura. A disputa acontece da seguinte forma: primeiro, os times de cada Região Político-Administrativa (RPA) disputam entre si. Depois ocorre um mata-mata entre os vencedores de cada RPA.

A Zona Oeste está representada por equipes nas RPAs 4 e 5. Os Jogadores geralmente são recrutados nos próprios bairros. Mas também rola aquela negociação típica do mercado da bola (em proporções menores, claro) para ver quem vai para que time. A competição acontece nas categorias: aberto, feminino e veterano.

O nome das equipes é também algo muito bom dessas competições, que permite uma peculiar abertura para o humor. Já passaram pelo campeonato o Urso Aranha, Palhaçada, Brazinha, Os Loucos Club da Vila, Barrigudo, Chá de Boldo, Guti Guti, Flamenguinho, entre outros. Os jogos, na zona oeste, acontecem nos campos do Caduco, da Marinha, do Rodoviário e do Jiquiá.

“Os campeonatos de várzea são uma ocasião muito boa, que conta com uma ampla participação da comunidade”, explica Carlinhos de San Martin, presidente do clube Urso Aranha. “Já chegamos a levar cerca de 300 torcedores para os jogos. As pessoas realmente se envolvem e ajudam o time”, disse Carlinhos.

“Nossa torcida também é conhecida como vibrante. E, nesse processo de campeonato, é muito empolgante, porque existe até um clima de rivalidade que estimula tanto os jogadores como a torcida”, disse Duda, presidente do Clube Bahia de San Martin.

O apoio da torcida numerosa desses clubes foi um importante componente para as conquistas. Tanto que o Urso Aranha se sagrou campeão, em 2008, da RPA5, e o Bahia conseguiu um feito ainda maior: foi campeão dos campeões das RPAs em 2012 e conseguiu chegar, novamente, à final da competição no ano seguinte.

Mas os campeões encontram pela frente um adversário mais difícil e implacável. Segundo Carlinhos, é grande a dificuldade de manter o clube por conta dos custos para participar da competição. “Não temos um apoio da Prefeitura que ajude a manter o clube. Só o custo para levar os atletas para os jogos já torna as coisas difíceis. Isso também é ruim porque um clube não é só futebol. Fazemos, além disso, trabalhos sociais, com escolinhas de futebol, cursos para concursos, entre outras ações. Tudo isso é bom para a comunidade, então seria bom se a Prefeitura investisse”, reclamou o presidente do Urso Aranha.

“Não temos apoio para nada. Vemos isso pela situação dos campos em que os jogos são disputados. O campo dos Caducos, na Mustradinha, está em uma situação de abandono. Nós é que temos que ficar fazendo a manutenção do local, mesmo sem recursos. Isso é negativo porque, com um bom campo, poderíamos fazer trabalhos sociais, como as escolinhas de futebol, que ajudam a tirar os jovens da criminalidade”, afirmou o jogador Maurício (Boneco), que já foi campeão por times como o Real da Mustardinha e Bahia, e se dedica ao incentivo da prática de esporte no bairro. Entre as iniciativas promovidas por ele está uma pelada, realizada toda sexta feira, no Campo dos Caducos.

As críticas não param por aí. Os boleiros de varzea ainda reclamam de outros fatores que dificultam a participação dos times na competição. “Antes a prefeitura costumava seder um ônibus para levarmos os jogadores para as competições. Hoje não tem mais isso. Além disso, antes, quando chegávamos às finais do campeonato das RPAs, podíamos jogar em grandes estádios como os Aflitos, a Ilha do Retiro e o Arruda. Infelizmente, isso também acabou, e é uma pena porque a oportunidade de jogar nesses lugares era um estímulo empolgante para os jogadores. Com tudo isso, nem é preciso dizer que a Prefeirtura não oferece nenhuma premiação para os campeões”, destacou Duda.

”Participar das competições é muito desgastante sem apoio, tanto que, esse ano, estamos pensando em não participar do campeonato da prefeitura. Outros times, como o Palhaçada, da Mustardinha, também estão na mesma situação”, lamentou o presidente do Urso Aranha.

Mesmo com as dificuldades para conseguir sustentar o time e se manter firme nas competições, ainda surgem novas equipes, empolgadas com a possibilidade de participar da grande festa do futebol de várzea. É o caso do Mirassol de Afogados, clube que iniciou atividades há dois anos. “Antes a gente era um grupo de amigos que gostava de jogar bola. Era mais de brincadeira. De dois anos para cá, decidimos levar mais à sério. Montamos o clube e competimos em um campeonato que aconteceu na Torre. Fomos vice-campeões, e isso nos motivou. Esse ano, iremos competir com um time formado por jogadores da localidade de Afogados”, contou Silas, presidente do clube.

Os campos de várzea ainda são espaços para a revelação de novos talentos. Muitos jogadores que se aventuraram nos campos de terra conseguiram chegar a uma carreira de profissionais.

“Isso acontece principalmente com os mais jovens. Sempre colocamos jogadores mais novos para que eles tenham essa oportunidade. Em muitas ocasiões, tem olheiros nos jogos para observar os garotos que tem talento”, explicou Carlinhos, do urso Aranha.

“Competindo nos campos de várzea os jogadores tem realmente essa oportunidade. No Bahia, por exemplo, no ano passado, tivemos o caso de Pedro Maycon, que competiu no Campeonato Pernambucano profissional no ataque do Serra Talhada”, lembrou Duda.

Juventude – A iniciativa de um cidadão da comunidade do Zeppelin, no Jiquiá, tem feito os campeonatos de futebol de várzea chegarem também para o público adolescente da zona oeste do Recife. O educador Marlon Henrique promoveu, no dia 15 de março deste ano, com apoio da prefeitura e de empresários, um tornei de futebol de futebol de várzea para a categoria sub-15.

A competição contou com 8 equipes, todas vindas de escolinhas de futebol, do Jiquiá, San Martin, Estância, Bongi, Mustardinha, Mangueira, Vietnã e Coque. O objetivo, de acordo com Marlon, foi promover uma ação social que valorizasse a prática esportiva.

“O esporte é muito importante para juntar pessoas. É um trabalho que pode fazer o jovem ir para um bom caminho. Além disso, esse é um projeto que está associado com a educação. Para participar, o atleta precisa estar frequentando devidamente a escola”, destacou Marlon. Nesse sentido, segundo ele, a realização de um campeonato acaba sendo um estímulo para que os jovens se dediquem mais.

“Você precisa ver no dia da competição. Os meninos ficam muito empolgados com a possibilidade de jogar com pessoas de outras localidades. Eles fazem uma grande festa. Acho isso muito bom, porque é uma oportunidade que eu mesmo não tive na infância”, contou Marlon.

O educador espera, agora, que a seu projeto ajude a disseminar a realização de campeonatos para os jovens em outras regiões. “A ideia é fazer com que isso se espalhe. Para incentivar esse processo, sempre iremos convidar para o campeonato uma equipe de outra RPA. Isso será um incentivo para essas RPAs fazerem o mesmo. Além disso, também queremos criar uma liga de escolinhas de futebol que torne a realização de torneios mais viável”, disse Marlon.

Se ligue no “LANCE LOCAL” – A partir desta matéria, o Infornativo irá publicar, a cada dois meses, uma reportagem sobre um time do futebol de várzea. Fique atento para acompanhar quem são as equipes e os talentos que fazem a torcida vibrar nos campos de terra.

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