O que dizem os trabalhadores da CEASA-PE

por: Peixe| Fotos: Osvaldo Morais

Motivado pela comemoração mundial dos trabalhadores do campo no dia 17 de abril, o Infornativo visitou a CEASA/PE para conhecer a rotina dos revendedores e fornecedores que utilizam o espaço para além da geração de renda familiar. Enquanto circulávamos no local, encontramos depoimentos que ressaltaram as virtudes e dificuldades vividas por aqueles que fazem parte desse universo à parte. O lugar que impressiona pela dimensão territorial e também pela diversidade de pessoas e produtos comercializados ao ar livre.

Segundo o setor de impressa do Centro de Abastecimento e Logística de Pernambuco, aqui funciona uma Organização Social (OS) vinculada à Secretária de Agricultura e Reforma Agrária do Estado de PE que foi instalada na Região Oeste do Recife depois de uma reforma administrativa do Estado que promoveu a partir do dia 1 de fevereiro de 2004, o primeiro sistema CEASA do País a adotar o padrão de gerenciamento administrativo com a participação interativa. Localizada no bairro do Curado, com uma distância de apenas 10 minutos para o centro da cidade, é quase um “bairro” que dispõe de uma área total de 580.000 m2, onde movimenta de cerca de 30.000 pessoas diariamente.

Sua localização é estratégica e privilegiada com intuito de atender a diversidade de usuários que migram, muitas vezes de fora do estado com objetivo de comprar ou vender seus produtos e que podem entrar ou saír pelos portões de acesso, localizados na BR101 Sul ou na BR 232, onde são cobradas as taxas e fazem os procedimentos de fiscalização.

Foi adotado o perfil de terminal de comercialização atacadista de frutihortícolas e derivados, aliado ao mercado de cereais, peixes, flores ornamentais, entre outras ofertas que levam aos usuários a oportunidade de encontrar serviços paralelos que fortalecem o comercio local e da cidade como um todo. Para facilitar a vida dos usuários na CEASA/PE, todos podem usufruir de serviços complementares como postos médicos, postos de apoio policial com segurança durante 24 horas, delegacia de repressão ao abuso contra o menor, agências bancárias com a presença de quatro instituições, agências de carros e caminhões, postos de gasolina, restaurantes e lanchonetes e uma numerosa rede de atividades terciárias que geram mais de 35 mil empregos diretos e indiretos. A média do volume mensal de negócios realizados na CEASA/PE, atualmente, alcança a soma de R$ 44 milhões.

Mas foi através do contato com os clientes e comerciantes no local que descobrimos histórias como a de José Florentino Pessoa que a 30 anos é vendedor de frutas e verduras, no bairro de San Martin e que também vende frutas na CEASA: “- A fruta que vendo vem da Bahia: limão, maracujá e abacate. A gente compra e estoca aqui mesmo nos caminhões e transportamos o que tem maior qualidade lá para meu comercio em San Martin”. Em um clima descontraído, José Florentino explica que o trabalho não é fácil: “- Eu chego aqui de duas horas da madrugada, porque trazemos de fora também. Aquele caminhão de maracujá é da gente, já descarregamos dois ontem”.

Com menos tempo de trabalho na CEASA, Cristiano Menezes que é morador de Jardim São Paulo diz que há 6 anos comercializa principalmente maracujá, goiaba e macaxeira de domingo à domingo: “-A gente chega de meia noite do dia anterior e sai daqui por volta das 8 horas da manhã. É a opção que a gente tem né, emprego tá difícil. A gente que tá aqui no comércio próprio é melhor do que tá trabalhando pros outros. Já compra aqui e já vende aqui mesmo. O comércio oscila muito, tem altos e baixos. Semana passada foi ruim, essa semana tá sendo bom e assim a gente vai.

Cristiano reclama sobre a concorrência desleal com os “Mangaeiros” que além de serem fornecedores, porque trazem de caminhão para vender aos revendedores locais, também aproveitam que estão estacionados nas proximidades para vender aos cientes do dia a dia: “- O melhor seria se os caminhões que chegam de Petrolina vendessem pra gente a um preço, e não vendesse direto aos clientes. Eles vendem diretamente no caminhão aos clientes que vem comprar pouco, pelo mesmo preço que a gente compra a eles. É desleal porque se eu compro a ele de 30 reais eu preciso vender a 35 no mínimo. É desleal, porque a gente paga área aqui. Tudo é taxa que a gente paga para trabalhar e os administradores não vê isso”.

Jailson Jerôncio da Silva que há 17 anos vem de Pombos para comercializar goiaba, uva, manga, pinha, laranja e o que tiver na época, concorda com Cristiano mas levanta outro problema que é comum entre todos. Diz que a exigência da padronização das caixas que transportam frutas e verduras e a taxa cobrada para assepsia e controle, influencia no valor final dos produtos: “-Na verdade hoje o que tá mais atrapalhando no momento são essas caixas. Essa lavagem de caixa é mal feita. Qual a finalidade de lavar aqui? Ela volta lá pra roça, leva lama, leva chuva, quando chega aqui tá assim. A higienização deveria ser feita lá pra chegar limpo aqui. Burocratizou, encareceu, e a gente tá tipo numa ditadura, não tem mais liberdade. A gente trazia nas caixas da gente, em saco, no que podia trazer. Já levei pra lá uma vez e não foi lavada, só passaram uma água e devolveram”.

Erivan Barros da Silva que há 20 anos vende goiaba, acerola e manga, também reclamou das caixas: “ – A gente compra as caixas mas não é dono delas. Pra sair com elas tem que pagar todo dia 55 centavos por caixa pra levar pro lava jato. Só que não lava não, passa só uma água, é só uma lavagem de dinheiro. E não é ruim só pra gente não, pro cliente também, que sai o preço no produto, e danifica a mercadoria também”.

Jailson continua a entrevista ressaltando outro problema que a própria equipe do Infornativo pode presenciar quando entrou na CEASA, e passaram cerca de 30 minutos para estacionar o veículo nas proximidades dos galpões de frutas e verduras, mais conhecido como “galpão dos sem terras”. Observamos que transito é desordenado e disputado entre pedestres, ciclistas, motociclistas, carroça dos vendedores ambulantes, carros de pequeno porte e caminhões: “- O trânsito aqui também é horrível. A gente às vezes deixa de vender, em época de festa mesmo. O povo não vem aqui porque fica tudo engarrafado. Às vezes o cliente vem e diz que passou duas horas preso no trânsito, aí desiste”.

Apesar de algumas críticas em relação a infra-estrutura e sobre a gerência de alguns processos da organização do local, para todo lado que se olha é observado um clima de brincadeiras entre feirantes, fornecedores e clientes. As chamadas entoadas para atrair a clientela são divertidas e criativas e deixam o ambiente leve apesar da poluição sonora dos carros, motos e caminhões.

Histórias como a de Tony Santos da Hora são inspiradoras e estimulam os mais jovens a lutar para sobreviver em meio a tantas dificuldades e adversidades geradas pela situação de crise política que reflete na econômica do pais: “ -Trabalho na CEASA desde meus 18 anos, mas vejo meus familiares trabalhando no segmento a cerca de 30 anos. Trabalho só com folhas, coentro, alface, salsa, couve, hortelã, rúcula e chego aqui de 1 hora da manhã, comprando dos fornecedores logo cedo, arrumo meu ponto direitinho pra ver o que eu preciso vender, aí na faixa das 3 horas os fregueses começam a chegar e vou despachando. Fico até meio dia, e as vezes até 13h da tarde, mas normalmente a partir das 9 da manhã o movimento já começa a diminuir, mas tem um pinga pinga que as vezes rende alguma coisa.

Apesar dos homens ocuparem um número mais expressivo no segmento, muitas mulheres estão imersas neste ramo e se destacam como Magna Gomes que mora em Olinda e vem a CEASA para abastecer sua Van para levar os produtos a serem comercializados na Feira Livre de Peixinhos: “- Eu chego aqui de 1 da manhã, e saio entre 4 e 5 horas. Época de festa é boa pra vender, aí eu passo de fruta pra vender outros produtos que estão em alta. Trabalho com isso desde os 15 anos e acredito que os preços deveriam ser melhor. Mas apesar de tudo, é aqui que encontro as melhores ofertas.

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