O grande Residêncial Ignêz Andreazza

por: Julie Marques| Fotos: Osvaldo Morais

A o pesquisar matérias sobre conjunto residencial Ignez Andreazza na mídia pernambucana, a imagem passada sobre o condomínio é de degradação, desorganização e violência. Numa visita ao local, a realidade logo tratou de surpreender. Após a identificação com o porteiro do residencial, foi necessário pedir autorização na administração central para realização desta matéria.

O principal acesso ao Ignez Andreazza é pela Avenida Recife, na altura dos bairros da Estância e Areias. O residencial é dividido em blocos, cada um com 8 ou 6 módulos, os prédios, com três andares e uma base híbrida entre caixão e pilotis. Cada módulo é constituido por 14 apartamentos. No total, existem 2464 apartamentos no condomínio, que ocupa uma área de aproximadamente 30 hectares. Os moradores defendem o título de “Maior Condomínio da America Latina”, como reza a lenda da mania de grandeza dos recifenses que consideram Pernambuco o melhor lugar do mundo.

O conjunto foi construído em 1983, e o projeto é assinado pelo arquiteto carioca Acácio Gil Borsoi, filho do arquiteto Antônio Borsoi, que projetou a confeitaria Colombo, no Rio de Janeiro. Sua obra se encaixa na arquitetura moderna, com simplicidade e linhas retas como características básicas. Ele ensinou Arquitetura na Universidade Federal de Pernambuco por quase trinta anos. O Ignez Andreazza, com nome que homenageia a mãe de um militar que foi Ministro do Interior e de Transportes durante a ditadura, foi realizado com investimentos do Sistema Financeiro de Habitação, mecanismo criado no início do Regime Militar para combater o déficit de moradia no Brasil.

No percurso até o prédio da administração, onde ficam o síndico e a equipe que organiza a gestão de todo o residencial, foi possível observar seguranças trabalhando, senhoras caminhando para seus afazeres diários, gente procurando apartamento para alugar. Evaldo Britto mora no condomínio há trinta anos, e faz parte da equipe administrativa há vinte. Ele não se imagina morando em outro lugar. “Você tá aqui a vinte minutos do centro, já cronometrei esse tempo, indo de ônibus. Aqui você tem ônibus para a Federal, Boa Viagem, Riomar, centro do Recife, Afogados, é uma localização privilegiada, tanto que aqui é considerado área nobre pela Prefeitura”, defende Evaldo.

A administração organiza os serviços coletivos para os condôminos. Eles contam com um centro recreativo, três quadras poliesportivas, um campo de futebol society, além de um clube onde acontecem aulas de capoeira e treino funcional para os moradores, e até shows. O próximo da programação é o cantor de samba romântico Iran Carlos no dia 08 de abril. Ali também funciona a Escola Estadual Senador Nilo Coelho, que tem um acesso para dentro do condomínio.

Porém administrar uma comunidade tão grande pode apresentar muitas dificuldades. A gestão do Ignez Andreazza é responsabilidade de um único síndico, que conta com sua equipe de trabalho, mas não há eleição para representantes dos blocos. Evaldo explica que existe o caso de representantes informais, como era o seu pai Edvaldo Britto, que faleceu há seis anos e ninguém quis assumir a responsabilidade. “A maioria da população é formada por idosos, que querem cuidar dos seus problemas e viver uma vida tranquila. Então apostando na juventude, temos um encarregado, mas ele sai para trabalhar de manhã e só chega à noite, aí quem ficou à frente da questão fui eu, porque já trabalho na administração e sou filho de seu Edvaldo”, conta Evaldo.

Um dos principais problemas que ainda são enfrentados pelos moradores do Ignez Andreazza é a segurança. Evaldo e sua colega de trabalho Rebeca Nascimento contam que as situações de assalto dentro e nos arredores do conjunto diminuíram bastante ao longo dos anos, mas relatam que na madrugada dia 19 de março um carro foi roubado durante um episódio de queda de energia, o que acontece com frequência. Segundo eles, as ocorrências mais comuns são de assaltos de celulares, mas ao mesmo tempo a equipe de segurança foi reforçada ao longo dos anos, e hoje em dia a maioria dos assaltantes são localizados.

Ana Rebeca Nascimento trabalha na administração e mora no conjunto há cinco anos, mas o apartamento em que vive é propriedade da sua mãe Jacira desde a inauguração. Ela conta que, de acordo com sua mãe, “o condomínio foi feito pra quem era servidor público, mas os servidores públicos acharam que ia ser de baixo nível pra eles, então a metade das pessoas que moravam aqui era militar, e começou a vir outras pessoas, com poder aquisitivo maior e menor também, e o condomínio que era muito bonito e arborizado com o passar do tempo foi ficando degradado”. A partir do final dos anos oitenta começaram a ser construídos muros e grades desordenadamente nas garagens dos apartamentos, além dos prédios começarem a ser pintados sem padronização. São aspectos que interferiram bastante na paisagem projetada por Gil Borsoi, pode e tornar negativa a experiência visual de quem passa por ali.

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