O estado de insegurança rouba nossos direitos

por: Peixe / Ilustração: Ribs

Para os trabalhadores assalariados e desempregados, pouco há para comemorar neste final de ano, pois vivemos uma crise que ultrapassa a econômica. Sejam ideologicamente de esquerda ou direita, sejam conscientes ou não de alguma posição ideológica, cresce nas pessoas o sentimento de descrença nos representantes e no sistema político como um todo. Perceber que o destino dos recursos públicos normalmente favorece os interesses das elites e dos políticos que estão obstinados a se manter no poder frustra a todos.  A deliberação de obras sem planejamento transformando as ruas dos bairros, só por que “é ano de eleição”. Assistir diariamente nas mídias que políticos e ricos empresários se consorciaram durante anos retirando recursos públicos que fazem muita falta no atendimento das necessidades básicas da população (educação, saúde, moradia e segurança), parecem minar os bons sentimentos e a esperança de um mundo melhor para as crianças e jovens.

Mais do que frustrante, é preocupante sentir os efeitos que esse clima de não ter perspectivas estão causando nos mais jovens. A desconfiança generalizada nas instituições públicas, a sensação social de desamparo e de falta de boas perspectivas parecem ter sido alguns dos gatilhos para a ampliação da violência urbana. A população se divide entre uma minoria dos que se entregaram ao banditismo e uma maioria assustada e perplexa com a insegurança. As autoridades, por sua vez, parecem não saber qual trajetória seguir para resolver tamanho problema, num dilema entre a valorização dos humanos direitos e a repressão dos que promovem episódios lamentáveis de crimes diversos.

Ricos empresários e políticos começam a ser presos no Brasil pelos seus crimes, mas este fato parece não estancar a violência aqui no andar de baixo. Eles pagam altos honorários aos melhores escritórios de advocacia com o dinheiro que tiraram da população, para que utilizem as brechas da lei a fim de ficarem impunes ou para que paguem suas penas suavemente, através de prisão domiciliar.

A repressão do criminoso pobre segue um rito diferente. As pessoas das favelas conhecem de perto quem vai para parede quando a força policial chega a procurar armas e drogas. Assim disse “Nêga” moradora da Roda de Fogo: “ Eu tava dormindo quando os homi entraram gritando. Disseram que tinha uma arma escondida na minha casa. Só porque minha filha às vezes se junta com a turma para fumar, alguém deu a ideia e eu que não tinha nada haver, levei bacolejo quase dormindo.” Para aqueles há mandados expedidos por juízes, mas para estes, o mandado de busca e apreensão já é uma bota que derruba a porta do barraco.

O sistema gera a guerra e é o cidadão quem paga. Por sua vez, o policial segue as ordens de quem o governa. Quando os moradores de uma favela são invadidos em suas residências, alguém deu o comando. Algumas vezes o policial não sabe nem o porquê de estar dando uma tapa na cara do usuário de drogas, mas assim faz por falta de capacitação ou por pressão da equipe em serviço. Vem se tornando rotineiro cenas de fugas, tiros desgovernados e apreensões de meninos(as) que nos finais de semana se reúnem nas principais praças dos bairros da região para escutar música, conversar, paquerar e usar  drogas.

As praças que deviam ser equipamentos públicos para incentivo, principalmente do lazer, no momento se assemelham a  campos de batalha entre a policiais e jovens que saem das favelas para ocupar os espaços. O Jornal Infornativo ouviu Neto, um jovem frequentador da praça Noel Pereira de San Martin, que nos disse como acontece: – “Eu venho lá da Mustardinha com minha turma. Gosto dessa praça da lombada porque é central, mas bom mesmo é dar um rolé e sempre tá num lugar diferente. Violência em todo canto tem, eu chego aqui pra dar uma olhada no movimento e conhecer gente. Venho em busca de paz, mas os homi chega botando todo mundo pra correr e quem fica vai pra parede. Né só aqui não, todo canto tem isso, não vou negar, fumo uma “coisinha”, mas não mexo com ninguém por causa disso.”

Também procuramos os moradores do entorno, que mesmo sem querer revelar sua identidade, nos surpreenderam com seus depoimentos: – “Essa situação nos finais de semana é bem complicada, essas crianças ficam na minha calçada fumando maconha e bebendo bebida alcoólica. Se tivesse algo pra eles fazerem, tenho certeza que eles não estariam fazendo só isso. Imagina essa praça sempre com eventos que pudesse incentivar esses meninos a fazer alguma coisa útil. E se fossem eles mesmos os responsáveis pelo evento, tudo seria diferente. A bronca toda é que ficam na calçada da gente, às vezes quero descansar e não posso. Mas quem devia tomar conta dessa situação era a prefeitura e não a polícia, que deviam cuidar deles e não bater ou prendê-los”.

Em 2018, nós eleitores seremos obrigados a eleger mais um grupo de políticos ao governo. Elegeremos um governo conservador e autoritário ou um governo que tenha políticas públicas inclusivas? Será que conseguiremos eleger quem permita ao cidadão a ocupação livre dos espaços, com incentivo governamental para que organizem eventos que valorizem sua cultura, por mais que pareçam desorganizadas? Afinal, cada grupo tem sua linguagem, um jeito de compartilhar suas experiências e devem ser respeitados, caso não estejam tirando o sossego dos que não desejam participar, como na problemática dos moradores do entorno das praças. Se os órgãos públicos se fizessem presentes sem truculência e proibicionismo, muitos avanços sociais já haveriam trazido de volta a tranquilidade que os moradores precisam para conviver. A participação do estado devia ser de cooperação no lugar da repressão, pra que a casa de Nêga não seja invadida de madrugada ou para que Neto e seus colegas se divertirem na praça, sem incomodar a vizinhança.

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