O abandono do terreno traz consequências

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Estamos às vésperas de completar um ano que os moradores do Bairro do Jiquiá, mais especificamente os das comunidades do Caxito e da Cabeça da Vaca não recebem nenhum tipo de informação ou vêem alguma mudança no terreno a que se destina a construção do futuro complexo empresarial e residencial Ecocity Jiquiá.  Conforme o projeto, este seria o primeiro bairro planejado do Recife, que entre outras instalações também previa a construção do Shopping Metropolitano do Recife. Este empreendimento criou muitas expectativas, pois a especulação imobiliária o vendeu sob o apelo de que sua implementação viria favorecer o cenário econômico dos bairros da Região Oeste do Recife a beneficiar a rotina dos moradores.

Mas as promessas chegam de forma desordenada, desde o dia 27 de dezembro de 2011, dia da primeira apresentação do projeto na Prefeitura do Recife. Naquela época, o prefeito João da Costa e secretários se reuniram com os empresários responsáveis, pela parceria: ITACON, Patrimonial Inteligência Imobiliária, LMS/TGI Gestão de Empreendimentos e a Ancar Inovoé. A última, uma empresa carioca, e mais conhecida em Pernambuco por ter fundado o Shopping Center do Recife, onde continua sendo acionista e expõe a participação com orgulho em seu portifólio.

Desde então o burburinho entre os moradores mais próximos é constante ao observarem ações isoladas dentro e fora do terreno: a limpeza do Rio Jiquiá antes das chuvas de inverno desse ano, o isolamento do terreno através de um muro, a implementação do serviço de vigilância 24h, a visita de engenheiros que mensuraram e marcaram algumas casas, e as poucas reuniões dos moradores com a prefeitura e com os empreendedores. Contudo, por cerca de 6 anos, nada mais saiu do papel e a expectativa continua. As mencionadas reuniões não foram suficientes para que os comunitários sintam-se seguros, pois bem sabem que os impactos iniciais no campo social e econômico podem trazer consequências danosas para os que moram próximos aos canais e por isso foram os primeiros a serem convidados para negociações. Estes temem pela imprevisibilidade de onde vão morar caso tenham que desocupar suas casas. Esta apreensão aparece nas indagações de Jorge, que é morador e comerciante da comunidade do Caxito: “- Já invadiram e tudo mais, já me disseram que era no meio desse ano de 2017 que iam chegar as máquinas e que iam começar a fazer… outros dizem que vai começar do canal para cá, que vão tirar de 10m a 15m a partir do canal. Primeiro vi as casas que foram numeradas, mas é muita falação. Não vejo o dono, só vem os assessores dizendo que vai construir de novo. Só promessa.” À medida em que fala, Jorge revela uma preocupação que não é somente dele e continua dizendo: “ Se eu for removido é difícil até de dizer… a pessoa sair daqui para ir pra um outro canto, terei que fazer minha clientela tudo de novo? Mas se tiver que sair, tenho que ser indenizado e até porque aqui também é um ponto comercial, que moro a quase 20 anos a convite do meu irmão, pago água e luz e meu comércio tem por volta de 10 anos que vendo nessa mercearia para o pessoal da vizinhança”. As preocupações de Jorge, refletem e é comum encontrar na  fala de outros entrevistados.

Mesmo que no futuro sejam justas as indenizações dos imóveis ou o remanejamento das famílias que vivem nas comunidades para um conjunto habitacional digno, é importante pensar como minimizar o que é inevitável. Os impactos sociais não deveriam desestabilizar as pessoas de uma comunidade constituída, mesmo que projeto Ecocity Jiquiá tenha importância econômica e possa tornar-se uma mola propulsora para o desenvolvimento dos comerciantes locais. Os indivíduo não deveriam perder o direito de escolher onde continuar vivendo, já que estarão sendo removidos compulsoriamente de onde constituíram suas famílias e estabeleceram vínculos. Assim também demonstram as palavras do Edson “Eu ainda não entendo a necessidade de remover os moradores daqui, era só construir dessa rua para frente, eles economizavam e era melhor pra gente. Aqui tá a infância da gente, onde a gente viveu e fez família. Ir pra outros lugares que eles decidirem, também não vale a pena. Moro aqui há 50 anos com minha família e trabalho nessa casa que também é uma oficina de lanternagem de carros. Aqui tenho um lugar para morar e para trabalhar, só de trabalho já fazem 30 anos aqui.”

Edson nos trouxe algumas memórias afetivas, que não são levadas em consideração pelo projeto que ainda não saiu do papel: “Aqui já vi plantar melancia, jerimum… já teve horta também, mas isso faz muito tempo. Essa terra é fértil. É só cair uma chuvinha que fica desse jeito, pode ver como o mato tá alto. Teve uma vez que o dono do terreno limpou tudo, isso foi ano passado, mas esse mato sobe rápido e prejudica na segurança… do mesmo jeito são esses muros que tiram nossa visão, devia ser cercado de grades. Mas tenho certeza que a maioria achou bom quando fizeram a limpeza no mato, melhorou e foi bom pra todo mundo.”

Os problemas da vegetação alta levantados pelo morador provém do abandono da parte interna do terreno, onde vive parte da comunidade. A PCR e por sua vez os proprietários do terreno, se abstiveram dos cuidados com os serviços básicos de coleta do lixo e da capinação no local, que foi de extrema importância para quem mora nas encostas dos canais que cortam parte do terreno como disse Mônica Maria: “Sou de uma família de quase 60 pessoas. Nasci na comunidade e esse mato alto sempre prejudicou as pessoas que moram perto do terreno. Quando chega a noite não tem energia e dá medo de passar por lá. Tem muitos bichos peçonhentos porque além do mato, tem também muito lixo. Devia ter uma caçamba ou qualquer coisa da prefeitura para juntar o lixo e que levassem pelo menos 2 vezes por semana.”

Marcone Macedo concorda e vai além: “ Moro aqui há 18 anos, mas já morei lá do outro lado, na Cabeça da Vaca. Tenho duas filhas uma com sete meses e outra com três anos e moro também com minha esposa, meu pai e minha mãe. Quando o mato cresce, dá muitas muriçocas e o pior é que a turma toca fogo, ai é ruim porque prejudica as crianças que respiram a fumaça do mato, misturado com a do lixo queimando. E já foi pior quando podia criar todo tipo de animais, mas agora só vejo vaca, cavalo, bodes e cachorros. Foi bom proibir de criar porcos por causa do mal cheiro e das doenças.”

E assim o problema se replicou nas palavras de Lúcia, que é moradora e membro da Comissão de Moradores do Caxito: “Já pedimos aquelas caixas de coleta de entulhos mas a EMLUB diz que todas estão ocupadas. Os próprios moradores é que as vezes dão um jeito… e limpam do jeito que podem… assim já fizemos com parte do lixo e do matagal. Juntei filhos, marido e amigos e usando estrovengas baixamos o mato até onde conseguimos. Tenho uma lista de protocolos de pedidos de limpeza pela prefeitura e de maneira nenhuma alguém sequer nos dá uma posição…  diferente de antes das eleições, que 3 vezes por semana a noite tinha caminhões fazendo a coleta do lixo na parte interna do terreno.”

Lúcia continua: “Outra bronca foi que esse ano, limparam apenas a boca do Rio Jiquiá e a parte dos canais que ficam fora do terreno, depois da Justiça Federal, mas deixaram os canais da parte interna do terreno entupidos de lixo e de mato, que cresce todo dia e nesses dias de muita chuva a água tem voltado pelos ralos e invadido nossas casas como antigamente. Até jacarés já foram encontrados circulando aqui dentro… tirando os insetos… que trazem todos os tipos de doenças. Olha as pernas da minha filha por exemplo, mesmo a gente tendo cuidado. Esse mato alto é fogo, traz insegurança que nem podemos falar muito porque moramos no lugar. O terreno tem vigilantes que estão apenas para evitar o despejo de entulhos e que façam outras construções no terreno, eles não tem força policial e não podem resolver questões mais difíceis.”

Lúcia que é membro da Comissão dos Moradores do Caxito e também coordena as ações de vigilância do terreno e por isso mantém o contato os proprietários do terreno, falou um pouco dos últimos contatos  entre a comissão, prefeitura e os empresários: “ A última reunião que a comissão participou, foi com o secretário João Braga, onde procurávamos saber a respeito dos prazos da formalização legal do termo do compromisso entre os empreendedores do Ecocity e a PCR sobre a remoção dos primeiros moradores. Lá o Secretário ligou para o Paulo Lavareda, dono do terreno, que disse não ter uma perspectiva sobre o início das obras, na época. Mas os últimos contatos  que tive diretamente com o Paulo, ele me disse sentado aqui nessa cadeira, que existe uma nova proposta em relação ao local para onde as famílias seriam relocadas. Fica nas imediações do quartel do (GOE) aqui mesmo no Jiquiá, em um terreno cedido pela prefeitura (PCR), e inicialmente seria construído 100 apartamentos populares e 75 seriam destinados para os moradores daqui e o restante ficariam para os outros programas habitacionais da prefeitura. E este processo se repetiria até que todos daqui fossem removidos do entorno do terreno e de cima dos canais. Mas a previsão é para quando o período chuvoso desse ano terminar, só ai é que teremos notícias”. Afim de confirmar algumas informações, consultamos o Paulo L. que via e-mail, não validou as informações ditas por Lúcia em relação a primeira fase de remanejamento das primeiras famílias. Reafirma que o cenário político/econômico não é favorável e por isso não tem previsões para quando iniciariam a primeira fase das obras no terreno.

Sem confiar no que é dito pela comissão, alguns moradores não vêem com naturalidade que membros da comissão possam trabalhar para o proprietário do terreno, pois acham que assim não dá para defender os interesses dos comunitários a serem removidos, porque assim colocariam seu emprego em risco se houver divergências nos acordos. Disse o morador com medo de retaliações: “Prefiro não me identificar, mas se tiver que sair quero uma indenização no valor da minha casa, porque eu posso escolher outra parecida. Acho que a maioria concorda em sair se tiver outro lugar já construído, ouvi falar sobre um terreno em Jardim São Paulo, mesmo assim não serve é longe daqui. O que ninguém aceita é o auxilio moradia, onde é que se aluga um lugar pra morar com trezentos e poucos reais? Já participei de duas reuniões, uma no Clube dos Cabos e Soldados e outra no Sport Clube, mas acho que a comunidade tem que se unir, porque já notei que esse pessoal da empresa chega de surpresa, como fizeram com a demolição de um prédio de madrugada, onde derrubaram tudo lá na parte do terreno perto da avenida da frente do parque. Não quero que do dia pra noite, minha família fique sem teto.”

O Jornal Infornativo voltou a visitar a comunidade do Caxito, a pedido de moradores. Muitos permaneciam com dúvidas, carentes de informações. Mas foi um comentário em uma das nossas publicações sobre o Ecocity Jiquiá  que em nossas redes sociais, por João Neto, leitor e morador de San Martin, nos motivou a retomar o contato com essas  comunidades para sermos o canal onde possam expressar suas preocupações, pois muitos já tem sua casa numerada e sentem-se incomodados até mesmo com o silêncio sobre o assunto e precisam planejar suas vidas: “- Os empreendedores prometem empregos, mas o impasse maior é que as pessoas  precisam  sair para o desenvolvimento chegar. Este filme já vimos na Vila Oliveira no Pina, com a construção do Shopping Rio Mar, em Camaragibe para se construir o terminal de ônibus e em outras inúmeras ações de despejos pra dar lugar a grandes obras no Recife. Como fica quem já vive ali há muitos anos, o que se deve fazer? A prioridade não seria a construção de casas decentes para os moradores que serão prejudicados? Então como lutar por uma cidade justa e igualitária para todos, se as políticas invertem as prioridades e não beneficiam os seus cidadãos?”

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