Jogar bola na rua é show de bola

por: Rafael Eduardo | Fotos: Osvaldo Morais

Não é a toa que o Brasil é o país do futebol. No país, não tem esporte mais popular e a prova disso não são só os estádios lotados e a grande audiência dos jogos de futebol profissional na televisão. A principal prova de que o futebol é popular no Brasil é que para se jogar só precisa ter os jogadores, dois pares de sandália (para servirem de barra) e uma rua livre, que está feita a pelada.

Ainda é possível ver, principalmente nos bairros mais periféricos, jogos de futebol como brincadeira nas ruas. O número de jogadores por times e o tempo da partida são adaptados para o espaço da rua, as partidas geralmente duram dez minutos ou acabam quando uma das equipes faz dois gols.

Quando não são realizadas na rua mesmo, as peladas acontecem em terrenos, campos de futebol improvisado, em quadras abertas nos bairros (como no caso da quadra do Centro Social Urbano – CSU de San Martin) e praças. Todo esse movimento configura o futebol urbano e mostra como a prática desse esporte está integrada com a cultura local.

Julio Marcos joga futebol na rua desde pequeno em San Martin. “No começo a gente jogava na rua mesmo. Era dois contra dois e, muitas vezes a gente fazia campeonato de rua contra rua”, conta ele. Hoje as peladas acontecem na praça, próxima à lombada eletrônica de San Martin. “A gente hoje tem uma pelada organizada, com times já certos, e barrinhas que construímos. É uma pelada de amigos de infância e o futebol é muito bom justamente para a gente socializar e desopilar”.

Mas por conta do desenvolvimento econômico e do inchaço urbano, as peladas na rua parecem cada vez menos freqüentes. Isso porque o trânsito de veículos tem se tornado cada vez mais intenso. “Ainda há algumas peladas que resistem. As crianças ainda jogam na rua, mas vejo isso com menos freqüência do que na época em que eu jogava na rua. Além disso, hoje em dia tem um movimento de campos de futebol society”, diz Julio Marcos.

As quadras de society, com piso de grama sintética, estão mesmo cada vez mais presentes, sobretudo nos bairros mais centrais e movimentados. Os espaços geralmente são alugados por grupos de peladeiros. “Nessas quadras da pra fazer um jogo mais organizado e é bom jogar no society porque é um espaço que tem características parecidas com a do futebol de quadra e de campo”, diz Rafael Valoes, que participa de várias peladas de futebol society na zona oeste.

Projeto – Um bom exemplo de ato de resistência do futebol de rua, e de promoção de atividades para integração da comunidade é o “10 minutos 02 gols”, promovido pelo Coletivo Escambo, em Paratibe, Paulista.

“A atividade que promovemos com futebol de rua, surgiu da necessidade de associar uma atividade recreativa que já existia com um discurso político que apontasse para o Direito à Cidade, principalmente no que se refere ao Direito ao Lazer e a apropriação de uma espaço público de lazer, em nosso caso a Quadra do Mangueirão. Passamos a organizar uma pelada semanal com jovens e adultos da comunidade, cujo mote principal era a organização coletiva horizontal (para que tudo funcionasse bem) e ressignificação de um espaço público de lazer degradado e de certa forma marginalizado pela comunidade.”, conta Diego Alberto, um dos organizadores do movimento.

Além das peladas semanais, o grupo passou a organizar torneios. Até o momento já foram 6 Copas Escambo 10min02gols! O formato prevê a formação de times por sorteio. Os times, seus escudos e simbologia são sempre os mesmos em todos os torneios, remetendo a elementos afetivos e históricos da localidade.

O Coletivo Escambo é um grupo organizado desde 2009 promovendo eventos culturais com bandas, grupos e artistas diversos da Região Metropolitana do Recife. A partir de 2011, passou a atuar de forma mais política, incluindo em suas ações a temática do direito à cidade através do discurso de apropriação do território (bairro), através da qual convocam as pessoas (moradores do bairro ou não) a ocuparemos os espaços públicos de lazer, pois a apropriação só acontece com o uso, que deve ser coletivo e consciente.

Deixe uma mensagem