Graxa na trilha, num clima tranquilo

por: Rafael Eduardo| Fotos: Fb Graxa

Seria Angelo Souza, mas no meio da música seu nome é Graxa, compositor do Jiquiá, na zona Oeste do Recife. Faz rock distorcido, misturado com timbres das décadas de 50 e 60, e referências musicais que vão até o samba. As letras tem reviravoltas surpreendentes, crítica e ironia,  falando sobre um personagem anti-herói. Graxa recebeu esse apelido porque, até hoje, como atividade secundária, trabalha numa oficina mecânica perto de casa. Sua atividade principal é a música (mesmo não sendo a mais rentável). Em entrevista ao Infornativo, Graxa, que lançou os álbuns “Molho” e “Aquele disco massa” e já prepara o terceiro, dá algumas pistas de como é seu som (disponível no Youtube), um som que vale a pena conhecer.

Infornativo – Como é tua relação com o bairro do Jiquiá?

Eu moro aqui perto, trabalho aqui desde pequeno. Presenciei bastante as mudanças do bairro. A quantidade de mata que tinha aqui era grande. Isso aqui era tudo mangue. E aí as pessoas foram fazendo aterro e construindo casa. Tem uma parte ali por trás, que pega a Vila Iolanda, em que teve muito esse processo. Então aqui, nessa parte da Estância, rola alagamentos monstruosos, ainda hoje. Acho que isso já contribui pra formar a cultura de um lugar. Mas é massa morar por aqui.Eu gosto daqui porque eu cheguei numa idade em que sentar num barzinho como esse e ficar tomando uma cerveja é maravilhoso. E como eu estou numa região em que eu vivo desde criança e conheço o pessoal. É um lugar que me dá esse conforto perto da rua de casa. Pra ir para outros cantos tem todo um custo de transporte e de gasto, e aí eu já cheguei num nível em que eu vou pra perto de casa, fico bêbado e volto pra casa (risos).

Infornativo - O bairro tem influencia nas tuas composições?

Não teria como ser diferente. Eu falo sobre acontecimentos do lugar onde eu vivo. No primeiro disco, eu vejo mais isso. Vejo mais um negócio local. Tem uma música sobre um episódio em que eu vou numa UPA aqui perto e pego uma  fitinha daquela que você nunca é atendido, acho que é a da cor  verde. Acho que isso faz as pessoas se identificarem, porque na periferia muita gente já passou por uma situação como essa. Já o segundo álbum não é tão local. Nele, eu saio desse bairro e vou encontrar com o mercado musical, falando sobre a estrutura do mercado da música, das transações, dos veículos de comunicação. Trabalho muito a questão da moeda de troca do artista.

Infornativo – E como você vê essa questão do mercado musical no Recife?

Eu tenho a visão de que na cena musical tem uma panelinha, que não é entre os músicos, mas sim entre quem faz a produção musical. Se você analisar no Recife, as pessoas que fazem a produção cultural na cidade são as mesmas desde muito tempo. Não tem muito um escoamento para algo novo. E nesse segundo álbum eu apresento essa crítica ao consumo musical, da indústria musical aqui do Recife.

Infornativo – Como foi teu primeiro contato com instrumentos musicais?

O primeiro instrumento que eu peguei foi um violão, eu tinha por volta de  12 anos. Eu não sei exatamente porque rolou esse interesse por música, mas eu acabei comprando um violão de um primo meu. Do nada, ele veio e falou que tinha um violão massa para mim. Eu tinha um vizinho que começou a tocar e acho que isso também me influenciou no início, porque eu tocava no violão dele. Outra coisa é que o violão que meu primo arrumou não era tão massa assim. Ele tinha a madeira solta na parte de trás e acabei escanteando ele e deixei por lá.  Daí só depois quando eu tinha entre  15 e 16 anos, eu conheci um pessoal da Vila Cardeal, entre eles Juvenil Silva, Juninho, André, que já tocavam juntos. E tinha um cara que morava aqui, o Gil. Ele estudava comigo e me levou pra ver um show desses  caras. Eu conheci a galera e foi ai que me lembrei que tocava violão. Eu ficava indo e me estimularam a aprender a tocar baixo.

Infornativo – E como foi para começar a compor?

Eu acho que comecei a compor quando eu comprei o White Album, dos Beatles. E eu peguei um White Album, que vinha com letra. Então eu pensei: ‘Beatles é massa, então eu vou pegar as letras deles e estudar como eles montam as estruturas’. Aí eu pegava um dicionário de inglês, traduzia e ficava observando as rimas, os espaçamentos. E daí eu fazia umas letras bem de “gurí”, foi assim que eu comecei. Eu fazia com o violão. Eu não sei se a ideia era ser punk, mas eu queria fazer música com a menor quantidade de notas possível. A única questão era que soasse bem. E eu também não tinha muito esse lado de pegar música dos outros. Então, eu preferia fazer minhas músicas. Eu achava muito legal poder fazer uma música que eu pudesse tocar. Eu também acho que as letras é o ponto mais massa, o ponto principal nas músicas. Desde pirralho, eu sempre gostei muito de ler. Eu viajo muito em leitura, e um dos prazeres que eu tenho é a literatura russa do sáculo 19, tipo Dostoievsky, Tolstoi. A literatura desse período é muito boa. Também gosto de Kafka. Isso influencia nas letras eu acho.

Infornativo – Quais foram os pontos de influencia da tua música?

Eu tive um privilégio legal. Meu pai sempre ouvia música muito boa dos anos 50, de uns cantores que tinham um vozeirão. Ele gostava de coisas tipo Elvis. E já minha mãe ouvia os bregas, na linha de Núbia Lafaiet. Tinha essas duas variáveis. Em comum, que todo mundo gostava, tinha um Bezerra da Silva, com aquelas letras dele, mas que era uma coisa super família. A primeira imagem que eu tenho de referencia musical são essas duas pontas. Uma mistura de Nubia Lafaet com Elvis, de Ray Charles com Evaldo Braga. Também teve muita coisa que tocava no rádio eu acabava ouvindo, mas o ponto base das minhas influencias era esse.

Infornativo – Como você analisa sua própria música?

Jorge Mautner falava que a música no Brasil era triste e que passaria a ser uma música feliz. Isso ele disse na década de 70 e acabou que hoje é um fato que a música brasileira se tornou feliz. Quando o cara faz uma associação dessa, ele me dá uma ideia, que eu não tinha percebido, de que eu trago de volta a música sobre o sentimento desse cara que não é um vencedor cheio de alegria. Na minha música, o personagem ao invés de ser um herói é um anti-herói. Não é aquele cara que vai chegar e agradar todo mundo, conquistar todas as garotas com seu passo de samba e pagode. É uma coisa que eu faço naturalmente.

Infornativo – Onde você já tocou? Já chegou a tocar no bairro na zona oeste?

Aqui no bairro eu já toquei há muito tempo atrás, eu era muito guri. Foi uma primeira experiência. Eu lembro também da época quando eu conheci os meninos lá de Areias, que também tocavam. Naquele tempo tinha uns palcos culturais que colocavam nas periferias. Rolava de tudo nesses palcos: rock, forró, repente…Eu vi os caras lá de Areias tocando o som ao vivo e achei muito bom.Vi que queria também tirar um som ao vivo. Foi ai também que encontrei uma galera que tocava músicas mais parecidas com as musicas que eu ouvia quando era guri e me identifiquei, vi que era o que eu queria fazer. Daí eu já toquei em São Paulo, Natal, Maceió, João Pessoa e Triunfo. Mas o lugar em que eu mais toquei foi no Recife. Quando eu lancei o segundo disco, rolou um boom em Recife de casas pequenas de show, o que eu acho muito mais interessante do que grandes eventos, que só acontecem uma vez por ano e tem critérios muito pessoais para  selecionar quem vai tocar. Acho importante que tenha esses eventos maiores, mas o que eu acho essencial são as pequenas casas. Então, nesse segundo disco, toquei o ano todo em Recife.

Infornativo – Como está o processo do terceiro álbum?

Ainda não tem previsão para lançar, mas nesse terceiro álbum eu estou misturando mais o som digital e o analógico. Esse disco já está quase pronto, está em fase de mixagem. Em relação aos temas das músicas, no segundo disco eu dou essa saída do Jiquiá, já no terceiro eu acho que eu volto pra cá e eu acho que vou ficar por aqui mesmo. Quem quiser me chamar tem que vir aqui no bairro.

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