Antes consciente que um cidadão penalizado

Foto: Osvaldo Morais

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por: Julie Marques | Foto: Osvaldo Morais

A calçada é o espaço da rua reservado para a passagem dos pedestres que no seu dia-a-dia precisam transitar com segurança dentro do perímetro urbano. Nos bairros da região Oeste assim como nas outras regiões metropolitanas da cidade do Recife, são eles que ocupam as ruas de verdade. Uma rua sem pedestres, que só possui trânsito de veículos motorizados, acaba se tornando um ambiente sem interação social, privando-os da possibilidade de conquistar novas relações que talvez lhes façam transformar o lugar que escolheram para morar, em um ambiente mais saudável e divertido a partir da troca entre os iguais que ali precisam conviver.

Porém, uma questão de grande importância que vem sendo motivo de reclamações por parte dos moradores é com relação às calçadas dos bairros da região Oeste do Recife. As diversas irregularidades foram encontradas tanto nas formas de construção que não respeitam os padrões de infraestrutura a garantir a acessibilidade, quanto na má conservação e manutenção do espaço. Muitas calçadas não possibilitam o acesso pleno aos pedestres e a situação para deficientes físicos se mostra ainda mais grave, pois até mesmo nas que fazem parte das principais avenidas que ligam os bairros é corriqueiro encontrar no caminho dos pedestres os desníveis (buracos) e obstáculos que causam o estreitamento do percurso, seja pelos cavaletes de propagandas ou até mesmo pelo lixo gerado pelos próprios comerciantes do local.

Foto: Osvaldo Morais

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O lixo acumulado nas calçadas, além de ser um problema de saúde pública, pois dá margem ao desenvolvimento de animais que transmitem doenças, torna-se também responsável por obstruir a passagem dos transeuntes. O caso mais alarmante é visto na Avenida Manoel Gonçalves da Luz na Mustardinha, onde há vários trechos de calçadas em que o depósito do lixo se tornou constante à vista da população. Esse lixo é acumulado, ao ponto de não haver mais espaço para o pedestre na calçada. Inclusive, moradores testemunham acidentes que já aconteceram devido ao bloqueio do passeio público.

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João Luiz, que trabalha numa loja de móveis, afirma que “um caso muito sério que acontece aqui na Mustardinha, como você pode ver, é lixo por tudo que é parte. Em cada esquina dessa tem lixo. Aqui tem, ali na frente tem, na outra esquina também tem. As calçadas, é um absurdo. Se você for andar nas calçadas, não tem como… tudo obstruído”. E ele também afirma, de onde lixo provém “dos moradores e de pessoas que negociam, feito borracharia que colocam todos os tipos de lixo. O pessoal que faz reforma traz metralha, traz telha, é uma imundície”. Ele aponta como causa geral o fato de que “a população, em si, não tem educação pra esse tipo de coisa”. Messias, outro trabalhador da área que passa diariamente pela avenida, chama atenção para o acúmulo: “todo dia o pessoal joga lixo aí, eu passo aqui todo dia. Quem produz o lixo é o próprio pessoal da feira, do mercado e do frigorífico. Pra ter conscientização, devia ter mais pontos de coleta aqui… e que elas fossem feitas todo dia”.

Próximo a eles, a calçada do SESI também é local de descarte de lixo. Uma das gerentes do SESI, Lígia Sacramento, aponta que o lixo da calçada não é da instituição e demonstra um interesse do órgão para ajudar a resolver a situação: “A gente precisa se unir pra fazer um trabalho na comunidade. A gente quer viabilizar e ajudar a comunidade a achar a solução pra que esse lixo seja colocado da maneira correta em algum lugar. A gente tá fazendo uma mobilização agora, tentando pegar os líderes comunitários aqui de perto pra fazer uma reunião com o pessoal da comunidade e ao mesmo tempo tá envolvendo também a Emlurb e a Prefeitura”.

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A saída para o problema do lixo não vem apenas do poder público. Além da ação Emlurb, que é a Secretaria de Serviços Públicos da Prefeitura do Recife, de recolher esse lixo, devemos contar também com a ação dos próprios moradores, trabalhadores e empresas da área para buscar a melhor solução para os descartes diários.

É necessário prestar atenção nos pontos de coleta, assim como, quando necessário, entrar em contato com a Emlurb para pressioná-la para que o recolhimento do lixo seja efetivo e para que haja interesse na realização da coleta seletiva.

Outro problema encontra-se em nas calçadas como as da rua Duarte Filho em San Martin, um exemplo claro da maneira inapropriada em que a prefeitura prioriza e destina a maior parte dos recursos públicos para construção de vias para automóveis e não para pedestres. Tornando cada vez mais uma cidade para os carros e não das pessoas que transitam a pé. “- É impossível desenvolver uma caminhada contínua e segura por estas calçadas do nosso bairro sem ter que desviar de algo ou até mesmo ter que descer dela. Na maioria das vezes o que nos resta é disputar espaço com os carros, motos e outros veículos e apelar para sorte de não se envolver em um acidente” diz o morador de San Martin, de apelido “Peixe”, que já escreveu um artigo para este Jornal na edição de dezembro de 2013. Relata ter presenciado duas ocorrência de tropeços seguidos de queda, por senhoras que foram levadas ao chão por conta dos desníveis apresentados nas calçadas desta rua: “As senhoras sofreram ferimentos leves, mas poderia ter sido bem pior”.

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Também é necessário chamar a atenção para os vícios de má ultilização das calçadas por parte do próprio morador. Quando entendemos que as ruas são uma extensão do nosso lar e precisamos manter o caminho livre da excreção dos animais domésticos. É imprecindível que nos passeios diários, os donos saiam de casa portando sacolas plásticas ou de papel para coletar e transportar os dejetos para lixeiras. Rosana Melo moradora do Condomínio Morada Recife Colonial localizado em San Martin, reafirma esta importância quando diz: “Todo dia me deparo com a calçada do condomínio cheia de cocô de cachorro. É lamentável saber que são os próprios moradores que mantém esta prática. Estou produzindo algumas placas educativas para espalhar durante todo o trajeto que norteia os 5 condomínios”. Promessa que pretende colocar em prática no inicio do mês de abril, junto com o Infornativo que se compromete em fazer a cobertura e lançar o exemplo desta iniciativa na página de nossa rede social.

A ação da população local é fundamental não só para o problema do lixo, mas também para a situação geral das calçadas. O proprietário responsável pela manutenção do espaço não pode construir sem ter autorização dos órgãos reguladores e caso precise tomar medidas emergências que façam utilizando o bom senso . Ou seja, cada morador, cada comércio, cada empresa é responsável por manter sua calçada em boas condições, para que seja possível que os pedestres transitem sem dificuldades e sem perigos. E cabe à Prefeitura a fiscalização.

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