A voz das ruas: o que o som diz sobre o bairro?

por: Julie Marques| Fotos: Osvaldo Morais

Viver numa metrópole como Recife é quase nunca ter silêncio absoluto. Nem precisa sair de casa para saber: motores, buzinas, festas de vizinhos, anúncios em carros de som, todos esses sons compõem ruído constante da capital. Numa época em que a rua voltou a ser um local de sentimento de insegurança para a população, ao mesmo tempo em que se torna mais comum a realização de protestos e passeatas no espaço público, procuramos saber: quem faz a voz da rua no cotidiano?

Numa caminhada pelas principais vias do bairro de San Martin, pelas ruas Apulcro de Assunção, Comendador Franco Ferreira, e nos arredores da Av. Vinte e Um de Abril, são muitos os sons que nos rodeiam. Conversas ao ar livre, músicas de diversos ritmos, carros de CDs piratas, anúncios de pizzaria formam o tecido sonoro do bairro se comunicando.

Pela manhã, de forma mais tímida, alguns comerciantes ambulantes circulam vendendo frutas e verduras pelas ruas do bairro, como Lucas Oliveira, que há seis anos trabalha no negócio da família. Numa parada rápida em seu percurso, ele explica que de dia trabalha com as frutas e verduras, e à tarde circula na bicicleta vendendo guloseimas de milho com o já conhecido anúncio “estou amando a Jesus” da carroça do Puro Milho. “Faço isso todo dia, a gente se acostuma, e quando um cliente chega perto eu diminuo o volume”, diz Lucas.

As bicicletas de anúncio são apenas uns dos sons com que a professora Taysa Guimarães compete todas as tardes na hora da aula da Academia da Cidade do Pólo de San Martin, na praça de eventos. Para guiar a aula, que é bastante frequentada — numa média de 35 alunos —, ela conta com o apoio de um microfone e uma caixa amplificadora onde ela coloca as músicas, de pop eletrônico a frevo, misturando de forma lúdica a dança com o exercício físico aeróbico. “Na praça você tem uma liberdade maior, é mais agradável, tem mais contato com as pessoas. Não é tão arborizado, tem a competição sonora, mas aqui você tem mais visibilidade, reconhecimento, as pessoas vem. O maior benefício daqui é antes de tudo, a socialização, as pessoas formam vínculos”, diz Taysa.

Às seis da tarde, quando acaba a aula da Academia da Cidade, o grupo de capoeira regional Ginga Brasil se reúne para sua aula. Comandados pelo contramestre Vovô (Alexandre D‘Moura), que dá aula na praça de eventos há mais de 10 anos, os alunos se encontram num clima de amizade e parceria. “A capoeira é bastante discriminada, e por muito tempo aconteceu em lugares fechados porque no início do século 20 ela foi proibida. Mas a capoeira veio da rua, é o lugar da liberdade. E aqui você tá sempre sendo observado enquanto educador, se reeducando sempre”, diz Alexandre. Para ele, a parceria e o respeito na convivência entre as atividades que acontecem na praça é fundamental, e os outros sons não interferem em nada em sua aula: “O nível de concentração na capoeira é alto, a capoeira estimula a concentração, desenvolve o reflexo, o a respiração, atividade muscular, motora, psicológica, até o olhar, porque se a pessoa não estiver atenta pode levar um golpe”, ele explica. A capoeira é guiada pelo seu próprio som, através das músicas, do berimbau, formando sua própria atmosfera de jogo.

Já à noite, a rua Mossoró tem se tornado a opção mais badalada do bairro. De terça a domingo os estabelecimentos oferecem música ao vivo, formando um pólo de consumo formado por bares, lanchonetes e restaurantes. Para o dono de bar Welberson Goes, “quando acaba a música o pessoal vai embora”. Ele cobra taxas baixas para o consumidor, e atrai muita gente, enchendo o bar e as calçadas. “Isso gera movimento pro bairro, e trouxe mais segurança também”, diz Welberson. Por outro lado, ele tem enfrentado problemas com a vizinhança por causa da música alta, “teve até abaixo assinado”, diz ele, que afirma que seu bar é um dos únicos que possuem alvará para som ao vivo, que é emitido pela Secretaria de Meio Ambiente.

San Martin é um bairro que está crescendo em atividades comerciais numa velocidade cada vez maior, e isso faz com que a circulação por aqui também aumente. O maior número de veículos motores circulando, assim como o trânsito, as atividades comerciais, a disputa entre os volumes de som, geram ruídos que podem afetar a saúde auditiva e até psicológica. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o som acima de 70dB (decibéis, a unidade que mede o volume do som) o som pode provocar estresse e comprometer a saúde mental. Para comparação, um jardim tranquilo produz um volume de 30dB, e o limite da audição humana é de 140dB.

Na busca por qualidade de vida, entender a massa sonora é essencial. Cultivar o silêncio interior através de práticas meditativas podem ser uma boa alternativa para não sofrer tanto com o barulho da cidade. Mas faz parte do exercício da cidadania praticar o bom senso na hora de colocar a música para tocar, respeitando limites de horário e volume, e também denunciar quando for necessário.

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